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A biodiversidade amazônica pode gerar renda sem que a floresta precise ser destruída para isso. Essa é uma das ideias centrais da bioeconomia na Amazônia, conceito que reúne atividades econômicas baseadas no uso sustentável da biodiversidade e dos recursos naturais, associadas à conservação ambiental e à geração e distribuição de renda.

O turismo se conecta a essa agenda porque pode transformar a conservação da natureza e a valorização das comunidades locais em fontes de renda. Turismo de natureza, Turismo de Base Comunitária e experiências relacionadas às atividades produtivas e culturais da região são alguns exemplos dessa relação.

Mas turismo na natureza não é, automaticamente, turismo sustentável. Para que a atividade contribua de fato para a bioeconomia amazônica, é preciso observar como ela é organizada, quem participa das decisões, quem se beneficia da renda gerada e quais impactos produz sobre os ambientes naturais e as comunidades.

O que é bioeconomia na Amazônia?

Não existe uma definição única de bioeconomia. O termo pode abranger desde setores que utilizam tecnologias avançadas para desenvolver produtos a partir de recursos biológicos até atividades extrativistas de menor impacto, como a produção de óleos, castanhas e resinas.

Na Amazônia, porém, essa discussão ganha uma dimensão particular. A biodiversidade está diretamente relacionada às formas de vida e às atividades econômicas de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas. Por isso, falar em bioeconomia na região também significa discutir conservação, participação social e distribuição de renda.

Uma análise do Climate Policy Initiative sobre o tema destaca justamente a falta de uma definição única e consensual para a bioeconomia. No Amazonas, a agenda também passou a fazer parte das políticas públicas estaduais, que tratam a bioeconomia como uma matriz econômica associada à conservação ambiental.

Para Pedro Meloni Nassar, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, esse debate também envolve o risco de o conceito ser incorporado pelo modelo econômico convencional e perder parte de seu sentido. No livro Umatalhi, Nassar chama atenção para modelos que utilizam a biodiversidade como matéria-prima, mas mantêm estruturas de produção concentradas e pouca distribuição dos benefícios.

Nesse sentido, utilizar um recurso da biodiversidade para gerar receita não é suficiente para caracterizar uma bioeconomia. A forma como essa riqueza é produzida, distribuída e relacionada à conservação também é relevante.

Qual é a relação entre turismo e bioeconomia?

A relação entre turismo e bioeconomia começa pela própria dependência que muitas experiências têm da conservação da biodiversidade. Trilhas, observação de fauna, passeios pelos rios, pesca e outras atividades de turismo de natureza só podem continuar existindo se os ambientes que as sustentam forem conservados.

Porém, a conexão vai além da paisagem. Quando a atividade turística envolve moradores, empreendimentos locais e cadeias produtivas da região, parte do gasto do visitante pode circular na economia local. Alimentação, hospedagem, transporte, condução de visitantes, artesanato e outros serviços podem fazer parte dessa cadeia.

A dimensão cultural também está presente. Em comunidades amazônicas, atividades como a pesca, a alimentação, o artesanato e outras formas de relação com o ambiente podem ser compartilhadas com visitantes quando isso parte do interesse da própria comunidade e respeita sua forma de organização. Nesse caso, o turismo pode criar uma fonte adicional de renda associada a atividades que já fazem parte da economia local, sem precisar transformá-las em atrações isoladas.

No Turismo de Base Comunitária, essa relação pode ser ainda mais direta. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o modelo é construído e protagonizado pelas comunidades locais, que compartilham com os visitantes suas práticas produtivas, culturais e sua relação com o ambiente.

Quando há participação nas decisões e acesso aos benefícios gerados pela visitação, o turismo pode se tornar uma atividade econômica associada à conservação. A biodiversidade sustenta a experiência oferecida ao visitante, enquanto a atividade turística pode gerar recursos para pessoas e iniciativas que contribuem para sua manutenção.

Como o turismo pode se relacionar com a conservação? Um exemplo da Reserva Mamirauá

Um dos exemplos que ajudam a visualizar essa relação está na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas.

Desde os anos 1990, quando a pesca comercial do pirarucu chegou a ser proibida em razão da sobrepesca, o Instituto Mamirauá desenvolveu um sistema de manejo participativo. As comunidades ribeirinhas realizam a contagem dos peixes nos lagos e, a partir desses dados, é definida uma cota anual de captura autorizada pelo Ibama. Quase três décadas depois, o estoque natural da espécie nas áreas manejadas cresceu cerca de 620%.

O caso mostra que conservação e geração de renda não precisam estar em lados opostos. O manejo permite que a pesca continue acontecendo dentro de limites definidos a partir do acompanhamento dos estoques, enquanto a atividade permanece ligada à economia das comunidades.

O turismo se conecta a essa dinâmica de diferentes formas. Parte do pirarucu manejado chega à mesa dos hóspedes do Uakari Lodge, pousada de gestão compartilhada entre comunidades locais e o Instituto Mamirauá. Ao mesmo tempo, a pesca tradicional da piranha, conduzida por moradores da região, integra algumas das experiências oferecidas aos visitantes na reserva.

Para quem visita Mamirauá, a atividade turística pode ser uma forma de conhecer a relação dos moradores com os rios e os recursos naturais. Para as comunidades, ela representa uma possibilidade de geração de renda vinculada à conservação dos ambientes que sustentam essas atividades.

O exemplo também ajuda a entender uma questão central da bioeconomia: não basta utilizar um recurso da biodiversidade para gerar renda. É preciso que existam mecanismos capazes de manter esse recurso, fortalecer quem participa da cadeia e distribuir de forma justa os benefícios gerados.

Essa distribuição é um dos desafios apontados por Nassar. O consumidor final pode pagar valores muito superiores ao que chega às pessoas responsáveis pelo manejo e pela produção. Quando essa diferença se torna muito grande, a própria continuidade das cadeias econômicas baseadas na biodiversidade pode ser comprometida.

O papel da governança na relação entre turismo e bioeconomia

Experiências de outras regiões também ajudam a pensar sobre as condições necessárias para aproximar turismo, conservação e geração de renda.

No Recôncavo da Guanabara, no Rio de Janeiro, o Instituto Sinal do Vale trabalha com uma abordagem que articula regeneração, turismo, unidades de conservação e comunidades locais em diferentes escalas. A proposta parte da conexão entre iniciativas locais, áreas protegidas e diferentes grupos que atuam na economia da região.

O exemplo chama atenção para um aspecto que também é importante na Amazônia: iniciativas de turismo e bioeconomia dependem da articulação entre diferentes atores. Comunidades, empreendimentos, gestores públicos e organizações da sociedade civil precisam participar da construção das regras e dos objetivos que orientam essas atividades.

Sem estruturas de decisão compartilhada, mesmo iniciativas bem-intencionadas podem ter dificuldade para distribuir benefícios, reduzir impactos e produzir resultados de conservação no longo prazo.

Quando o turismo sustentável deixa de ser apenas discurso?

O fato de uma atividade turística acontecer em meio à natureza não significa, por si só, que ela contribua para a conservação. Da mesma forma, chamar uma experiência de sustentável não demonstra que ela gera benefícios para as comunidades ou reduz impactos ambientais.

É nesse ponto que a relação entre turismo e bioeconomia precisa ser analisada com cuidado. Mais importante do que o discurso é observar como a atividade funciona: quem participa das decisões, de onde vem a renda, quem se beneficia, quais impactos são acompanhados e se existem mecanismos para conservar os recursos naturais dos quais o turismo depende.

O termo greenwashing ganhou força justamente para descrever situações em que uma organização apresenta uma imagem ambientalmente responsável sem que suas ações correspondam ao discurso. A expressão surgiu no setor hoteleiro, em um ensaio de 1986 do ambientalista Jay Westerveld sobre um hotel nas Fiji que incentivava os hóspedes a reutilizar toalhas em nome da proteção ambiental enquanto ampliava suas instalações sobre uma área natural.

Hoje, o problema aparece em diferentes setores e também pode alcançar o turismo. Expressões como “turismo sustentável”, “turismo responsável” ou “sociobioeconomia” podem perder significado quando são usadas sem informações que permitam verificar seus resultados.

Na Amazônia, isso ganha uma dimensão ainda mais sensível. Uma experiência pode gerar receita e, ainda assim, concentrar os benefícios fora da comunidade, pressionar recursos naturais ou deixar moradores de fora das decisões. Também pode utilizar elementos da cultura local como atração sem garantir participação ou retorno financeiro para quem os compartilha.

Evitar esse cenário exige mais do que uma boa comunicação. É necessário investir na formação de pessoas e organizações envolvidas com turismo responsável, fortalecer mecanismos de governança, acompanhar impactos ambientais e sociais e garantir transparência sobre a distribuição dos recursos gerados pela atividade.

Também é importante que a comunicação seja capaz de mostrar processos e resultados e não apenas associar uma experiência à ideia de sustentabilidade.

Turismo, bioeconomia e conservação: uma conversa necessária para a Amazônia

A relação entre turismo e bioeconomia depende, portanto, de mais do que transformar a biodiversidade em atração turística. O potencial está em construir atividades que valorizem a conservação, fortaleçam as economias locais e ampliem a participação das comunidades nas decisões sobre a visitação.

A Reserva Mamirauá mostra uma possibilidade concreta dessa conexão. O manejo dos recursos naturais, a geração de renda e o turismo podem fazer parte de uma mesma dinâmica quando existem regras, acompanhamento e participação comunitária. O desafio é fazer com que os benefícios dessa economia permaneçam ligados às pessoas e aos ambientes que tornam essas atividades possíveis.

É essa discussão que estará no centro do Fórum de Turismo Responsável, que em 2026 chega à Edição Amazônia. O evento acontece de 23 a 25 de novembro, em Manaus, reunindo diferentes atores para discutir turismo de base comunitária, bioeconomia, conservação, mudanças climáticas, diversidade e desenvolvimento responsável.

A discussão também está no centro do livro Umatalhi, publicação gratuita organizada pelo Instituto Vivejar em parceria com o Laboratório de Estudos de Turismo e Sustentabilidade da Universidade de Brasília, que reúne reflexões e experiências sobre turismo responsável e bioeconomia.

Para quem quer compreender como turismo, conservação e geração de renda podem se relacionar na Amazônia, o Fórum será um espaço para conhecer experiências, aprofundar esse debate e construir novas conexões.

Acesse o site do Fórum Brasileiro de Turismo Responsável e saiba mais sobre a Edição Amazônia e os temas que estarão em discussão no evento.

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