Entenda por que o Fórum Brasileiro de Turismo Responsável escolheu o termo “responsável” e o que essa diferença significa na prática para destinos e comunidades.
Imagine um destino que recebe cada vez mais visitantes, vira capa de revista, atrai investimento. E a comunidade que vive ali assiste a tudo isso sem se beneficiar. O turismo foi sustentável, mas quem foi responsável? Essa é a pergunta que o Fórum Brasileiro de Turismo Responsável se recusa a deixar de fora da conversa.
A palavra “sustentável” se tornou um porto seguro no turismo. Ela forçou o setor a pensar em limites, impactos e no futuro. Com o tempo, porém, o termo se popularizou tanto que corre o risco de perder a força, de se tornar um selo conveniente que esconde uma pergunta crucial: quem responde pelas consequências das nossas escolhas?
O que a sustentabilidade nos ensinou
Seria injusto descartar o legado do conceito de sustentabilidade. Nas últimas décadas, ele operou uma mudança real na forma como o setor pensa seu papel no mundo. Foi a sustentabilidade que trouxe para o centro do debate a ideia de que os recursos naturais têm limites, que a capacidade de carga de um destino não é infinita, que o turismo de massa destrói aquilo que promete mostrar e que o futuro é consequência do presente.
Essa virada foi necessária. Sem ela, não teríamos hoje as discussões sobre ecoturismo, turismo de base comunitária, certificações ambientais e gestão responsável de destinos. A sustentabilidade abriu uma porta importante, mas reconhecer limites não é o mesmo que assumir responsabilidades.
O problema da palavra que virou rótulo
À medida que a palavra ganhou prestígio, virou marca e argumento de venda. Hotéis adotaram o termo para comunicar pequenas mudanças operacionais. Roteiros passaram a incluir o prefixo ‘eco’. Destinos incorporaram o adjetivo às suas estratégias de comunicação. Em muitos casos, com genuína intenção de mudança. Em outros, sem que a palavra fosse acompanhada de uma transformação estrutural. A pergunta que a sustentabilidade aprendeu a fazer é: “isso pode se manter ao longo do tempo?” É uma pergunta essencial, mas incompleta se não vier acompanhada de outra: quem se responsabiliza pelos impactos gerados aqui e agora?
O que muda quando falamos em responsabilidade
A palavra “responsabilidade” carrega uma dimensão que a sustentabilidade, sozinha, não abarca: ela implica sujeito. Implica alguém que responde.
Quando dizemos que uma prática é sustentável, descrevemos uma característica. Quando dizemos que alguém é responsável, estamos falando de uma relação entre uma ação, seus efeitos e a pessoa ou organização que os assumiu.
Responsabilidade é um conceito de ética prática. Diferente de muitos termos técnicos do setor, ele não precisa de tradução. Carrega em si a ideia de que quem age também responde pelo que sua ação gera.
No turismo, isso tem implicações concretas.
É sustentável promover o transporte terrestre para um destino, reduzindo as emissões de carbono, mas é responsável questionar se o território está preparado para receber um alto fluxo de veículos, entender quem realmente se beneficia desse fluxo e quem arca com os custos invisíveis: o ruído, a poluição local, a pressão sobre a infraestrutura pública, a transformação do cotidiano de quem vive ali.
É sustentável criar experiências com baixo impacto ambiental, mas é responsável garantir condições de trabalho justas para quem as opera, assegurar que a renda gerada circule dentro do território e que essas experiências não descaracterizem a identidade cultural da comunidade que as tornou possíveis.
A diferença pode parecer sutil. Na prática, muda tudo.
Um exemplo do território: o Geoparque Seridó
Para sair do plano abstrato, vale olhar o que aconteceu no Geoparque Seridó, no Rio Grande do Norte, um dos projetos do portfólio do Instituto Vivejar.
O território tem um patrimônio geológico notável: afloramentos rochosos, sítios de arte rupestre, paisagens que contam milhões de anos de história da Terra. Uma abordagem estritamente sustentável apontaria para a organização das visitas de forma a reduzir o impacto ambiental sobre esses sítios. Correto e necessário.
Mas a abordagem responsável foi além. Em vez de desenvolver roteiros com foco apenas na preservação do patrimônio natural, o projeto se debruçou sobre uma pergunta mais difícil: como estruturar uma oferta turística que fortaleça a identidade do Seridó e empodere os empreendedores locais, em vez de apenas “proteger” o território enquanto o visitante passa por ele?
A resposta veio do diálogo com as comunidades. Rotas que integram a cultura sertaneja, a culinária, o artesanato, a música e os saberes tradicionais como parte constitutiva da experiência, não como enfeite folclórico, mas como protagonismo real de quem vive ali. O resultado foi uma oferta turística ao mesmo tempo mais sustentável e mais competitiva, porque nasceu de dentro do território.
Isso é responsabilidade: não pensar como um modelo pronto, mas construir junto com quem tem a resposta.
O turismo acontece no território
Essa frase, central na concepção do Fórum, resume bem a diferença entre os dois conceitos. A sustentabilidade pensa em escala global: emissões, biodiversidade, futuro do planeta. A responsabilidade pensa no endereço: nesta comunidade, neste rio, nesta família, neste trabalhador. Não são perspectivas excludentes e sim complementares. E é a segunda que, muitas vezes, fica de fora quando o debate se limita a selos e certificações.
É por isso que o Fórum, ao se expandir para edições regionais, carrega esse princípio como metodologia. A decisão de chegar a Belo Horizonte em 2026 não é casual. Minas Gerais vive um momento de expansão do turismo, e é nos contextos de crescimento que a discussão sobre responsabilidade se torna mais necessária, antes que os impactos se tornem irreversíveis.
Cada território tem desafios próprios, dinâmicas, histórias de resistência e de vulnerabilidade. Um debate que só acontece em escala nacional corre o risco de produzir respostas genéricas para problemas específicos.
Por que isso importa agora
Os destinos mais buscados já sentem a pressão do excesso. Comunidades tradicionais assistem à valorização turística do seu território sem necessariamente se beneficiar dela. A especulação imobiliária avança sobre lugares que se tornaram “descobertos”. As narrativas de marketing continuam, muitas vezes, à frente das realidades que prometem mostrar.
Nesse cenário, o turismo responsável não é uma corrente filosófica alternativa é também uma necessidade prática. Uma forma de garantir que o setor continue existindo com qualidade, para os viajantes, mas sobretudo para as comunidades que sustentam cada destino.
O Fórum Brasileiro de Turismo Responsável não nasceu para negar a sustentabilidade. Nasceu para lembrar que ela não é suficiente, se não vier acompanhada da chamada à ação e responsabilização.
O Fórum Brasileiro de Turismo Responsável realiza sua primeira edição regional em Belo Horizonte. Garanta sua participação e venha contribuir ativamente para os caminhos do turismo no Brasil.
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