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Entenda como o aumento das temperaturas extremas na Amazônia afeta destinos turísticos e por que a adaptação climática precisa entrar no planejamento do setor.

O que as mudanças climáticas na Amazônia exigem do turismo?

As mudanças climáticas na Amazônia exigem que destinos, empresas e gestores turísticos incorporem os riscos de calor extremo, seca e alterações no regime dos rios ao planejamento da atividade. Isso envolve rever calendários de visitação, preparar a infraestrutura, garantir condições adequadas de trabalho e estabelecer protocolos para mudanças nas operações.

Um estudo publicado em setembro de 2026, com participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), identificou que as temperaturas extremas na Amazônia estão aumentando mais rapidamente do que as médias anuais. Os resultados ampliam a compreensão sobre os riscos climáticos enfrentados pela região e ajudam a dimensionar os desafios para atividades que dependem diretamente das condições ambientais, como o turismo.

A pesquisa, publicada na revista científica Communications Earth & Environment, analisou dados climáticos de 1981 a 2023. Em cerca de 10% da Amazônia, uma área superior a 700 mil km², as temperaturas máximas extremas durante a estação seca aumentaram pelo menos 0,75 °C por década. O estudo também identificou uma intensificação do déficit hídrico associado às condições de calor.

Os números estão detalhados no estudo sobre o aumento dos extremos climáticos na Amazônia e na divulgação oficial do INPE.

A diferença entre o aumento da temperatura média e o dos extremos merece atenção. O aquecimento médio indica uma tendência de longo prazo, enquanto os episódios extremos podem impor condições mais severas em períodos específicos. Para o turismo, essa distinção importa porque a viabilidade de uma atividade depende também das condições enfrentadas durante sua realização.

Esse cenário de longo prazo ganha um componente adicional em 2026, já que o El Niño, fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, foi declarado em curso pela NOAA em junho e, segundo o diagnóstico de outubro do Climate Prediction Center, segue se intensificando, com probabilidade superior a 83% de que permaneça de forte a muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027. A Organização Meteorológica Mundial indica que o evento deve atingir o pico no fim de 2026, que seus efeitos serão sentidos depois disso e que eles se distribuem de formas diferentes pelo mundo, com chuvas acima da média em partes da África Oriental e risco de condições mais secas no sul do continente africano, e no Brasil a previsão do INPE para novembro, dezembro e janeiro aponta temperaturas acima da média na maior parte do país, redução das chuvas no norte e leste da Amazônia e excesso de chuvas no Sul. O estudo do INPE analisa dados até 2023 e não avalia o evento atual, mas ambos tratam do mesmo problema de fundo, o de que o calor e a falta de água na região já são condições que o planejamento turístico precisa considerar. 

Por que o calor extremo importa para o turismo?

O turismo na Amazônia depende de uma combinação de fatores ambientais, logísticos e sociais. Passeios fluviais, observação de fauna, trilhas, hospedagens em áreas naturais e experiências conduzidas por comunidades estão sujeitos às condições climáticas e às características de cada estação.

O aumento das temperaturas extremas pode elevar o estresse térmico durante atividades ao ar livre, exigir mudanças nos horários dos passeios e aumentar a necessidade de água, sombra e períodos de descanso. Essas medidas são especialmente relevantes para atividades que envolvem esforço físico, exposição prolongada ao sol ou deslocamentos em embarcações.

O calor também pode afetar trabalhadores que atuam na condução de visitantes, no transporte, na manutenção de estruturas e nos serviços de alimentação e hospedagem. A adaptação, portanto, precisa considerar as condições de trabalho de quem mantém a operação turística, e não apenas o conforto de quem visita o destino.

Os efeitos variam de acordo com a atividade, a localização e a duração da exposição. O estudo do INPE não avaliou diretamente os impactos sobre o turismo, mas seus resultados fornecem evidências importantes para o planejamento de atividades expostas a extremos de temperatura.

Rios, água e sazonalidade: os impactos vão além da temperatura

Na Amazônia, a sazonalidade turística está estreitamente relacionada ao ciclo das águas. A variação dos níveis dos rios influencia a navegação, o acesso a comunidades, a paisagem e as condições de realização de diferentes experiências.

As secas de 2023 e 2024 demonstraram como alterações hidrológicas podem comprometer a mobilidade e o abastecimento na região. Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, os níveis críticos dos rios afetaram o transporte de passageiros e cargas, o acesso à água potável e o abastecimento de municípios amazônicos. Comunidades ribeirinhas e indígenas também enfrentaram dificuldades de deslocamento. Aquelas secas coincidiram com o El Niño de 2023 e 2024, e o episódio atual reabre esse risco, já que órgãos federais de monitoramento projetam chuvas abaixo da média em grande parte da Amazônia Legal entre novembro e janeiro, com possíveis efeitos sobre a navegação e a captação de água. 

Esses impactos revelam riscos operacionais que precisam ser considerados pelo setor turístico. A redução do nível dos rios pode exigir alterações nos trajetos, nos pontos de embarque e nos tempos de deslocamento. Dependendo das condições de navegabilidade, atividades podem precisar ser remarcadas ou suspensas.

A disponibilidade de água também interfere no funcionamento de hospedagens, restaurantes e demais serviços. Em localidades com infraestrutura limitada, a pressão sobre o abastecimento pode afetar tanto a operação dos empreendimentos quanto as necessidades cotidianas dos moradores.

Isso exige atenção à sazonalidade. Os calendários turísticos precisam considerar as variações ambientais observadas e as projeções disponíveis, sem tratar as condições de uma estação como garantidas todos os anos. A definição de períodos de visitação deve levar em conta a segurança, a capacidade operacional e os impactos sobre as comunidades anfitriãs.

Comunidades e empresas precisam estar no centro da adaptação

Os riscos climáticos não se distribuem igualmente. Comunidades que dependem dos rios para acessar serviços, transportar alimentos e comercializar produtos podem enfrentar consequências mais graves quando ocorrem secas extremas. Ao mesmo tempo, empreendimentos turísticos que dependem da circulação fluvial podem sofrer aumento de custos, atrasos e cancelamentos.

Quando uma operação é interrompida, os efeitos podem alcançar guias, condutores de embarcações, artesãos, produtores de alimentos, prestadores de serviços e outros trabalhadores envolvidos na cadeia turística. Para negócios comunitários, a perda de uma temporada ou a redução do número de visitantes pode comprometer uma parcela importante da renda.

Por isso, a adaptação precisa ser construída com participação das populações que vivem nos destinos. O conhecimento de quem acompanha os ciclos dos rios, as condições de acesso e as mudanças na disponibilidade de recursos contribui para identificar riscos e formular respostas adequadas à realidade de cada lugar.

A continuidade da atividade turística depende também da manutenção das condições de vida das comunidades anfitriãs. Planos de contingência não devem priorizar apenas o cumprimento dos roteiros ou a redução de prejuízos empresariais. É necessário considerar o acesso à água, a segurança dos trabalhadores, a mobilidade dos moradores e a preservação dos recursos naturais dos quais a própria atividade depende.

Como preparar o turismo para os extremos climáticos?

A adaptação climática precisa fazer parte das decisões cotidianas de gestão. No turismo amazônico, isso significa transformar informações sobre temperatura, chuvas, níveis dos rios e alertas meteorológicos em procedimentos concretos.

O Plano Setorial de Adaptação à Mudança do Clima para o Turismo, do governo federal, reconhece que eventos extremos podem afetar a infraestrutura, a sazonalidade, a competitividade dos destinos e a geração de renda. O documento situa a adaptação como parte do planejamento necessário para reduzir a vulnerabilidade do setor.

Na prática, algumas medidas precisam entrar na agenda de destinos, empresas e gestores públicos:

  • Monitoramento e protocolos operacionais: Acompanhar previsões meteorológicas, alertas de calor e informações sobre os níveis dos rios permite antecipar mudanças nos roteiros. Os empreendimentos precisam estabelecer critérios claros para alterar horários, modificar trajetos, suspender atividades ou acionar planos de emergência.
  • Infraestrutura preparada para o calor e a escassez de água: Sistemas de abastecimento, armazenamento e uso eficiente da água devem ser compatíveis com as condições locais. Áreas de descanso, ventilação, sombreamento e acesso a água potável também precisam ser considerados na organização das atividades e dos espaços de atendimento.
  • Revisão da sazonalidade turística: Os calendários de visitação devem ser avaliados à luz das mudanças ambientais, das condições de acesso e da segurança. A diversificação de experiências pode ajudar a reduzir a dependência de uma única atividade ou período do ano, desde que respeite os limites ecológicos e as decisões das comunidades.
  • Condições de trabalho e segurança: Guias, condutores, equipes de manutenção e outros profissionais precisam contar com orientações para o trabalho em períodos de calor intenso, acesso a água, pausas adequadas e procedimentos para situações de emergência. A segurança deve ser critério para decidir se uma atividade pode ser realizada.
  • Planejamento financeiro e continuidade operacional: Reservas para emergências, políticas transparentes de remarcação e cancelamento, comunicação antecipada com visitantes e alternativas logísticas podem reduzir perdas quando as condições ambientais exigirem mudanças. A articulação entre empresas, comunidades, operadores de transporte e poder público é fundamental para que essas medidas funcionem.

A efetividade dessas ações depende de informações atualizadas e de planejamento específico para cada destino. Não existe um protocolo único que responda às diferentes condições climáticas, logísticas e sociais da Amazônia.

Adaptação climática precisa fazer parte das decisões sobre o futuro do turismo

O estudo do INPE reforça a necessidade de considerar os extremos climáticos no planejamento de atividades econômicas que dependem das condições ambientais. Para o turismo, a questão envolve a segurança dos visitantes, a continuidade das operações, a proteção dos trabalhadores e a manutenção das condições que sustentam a vida das comunidades anfitriãs.

A adaptação também precisa caminhar junto à mitigação. Combater o desmatamento, prevenir incêndios e reduzir as emissões de gases de efeito estufa são medidas importantes para limitar os riscos climáticos. Ao mesmo tempo, os destinos precisam se preparar para impactos que já estão sendo observados e que podem se intensificar.

Esse debate ganha relevância na Edição Amazônia do Fórum Brasileiro de Turismo Responsável, que será realizada em Manaus (AM), de 23 a 25 de novembro de 2026, período próximo ao pico previsto para o El Niño. Ao reunir profissionais, pesquisadores, empreendedores, gestores e representantes de iniciativas comunitárias, o Fórum amplia o espaço para discutir como o turismo pode responder aos desafios climáticos sem desconsiderar os direitos das populações locais e a conservação dos ecossistemas. 

Incorporar a adaptação climática ao planejamento turístico exige decisões concretas, articulação entre diferentes setores e participação de quem vive nos destinos. Na Amazônia, essa agenda é fundamental para que a atividade possa continuar gerando trabalho e renda sem ampliar a vulnerabilidade ambiental e social da região.

Quer acompanhar de perto os próximos passos dessa construção coletiva? 

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